Apresentamos aos nossos leitores mais um clássico da
literatura marxista, “Questões do Modo de Vida”, escrito por Leon Trotsky,
então Comissário do Povo para o Exército e a Marinha da URSS, em 1923. A
princípio, pode parecer estranho que Trotsky, dirigente político e militar da
Revolução de Outubro, detenha alguma preocupação teórica sobre um tema
aparentemente secundário, como os hábitos e costumes do proletariado. No
entanto, se esta questão adquiriu tamanha importância foi devido às
contradições e conflitos sociais, resultantes da situação gerada pelo "comunismo de guerra". Para enfrentar as conseqüências da guerra civil, o
Estado operário soviético se viu obrigado, em 1921, a adotar a NEP, com o
objetivo de acabar com a política de requisições forçadas no campo,
incentivando, através de medidas de mercado, o desenvolvimento da indústria e
do comércio, e estimulando os interesses dos pequenos proprietários em meio à
uma economia arrasada. Foram anos duros para a revolução, ainda mais
considerando o seu grau de isolamento internacional, já que a onda
revolucionária na Europa no pós-guerra, principalmente com o esmagamento da
revolução alemã, tinha sido derrotada pela contra-revolução. Se a NEP era
economicamente necessária para o soerguimento das forças produtivas,
politicamente era perigosa à revolução, porque ampliava o fosso de
desigualdades sociais e econômicas entre os ‘kulaks’ (camponeses ricos) e os
‘biedniaks’ (camponeses pobres), fazendo nascer os ‘nepmen’, novos burgueses.
Na cidade, o melhor da vanguarda proletária tinha sido liquidada na guerra
civil. A NEP fez surgir uma nova classe operária, oriunda do campesinato e
totalmente carente de qualquer tradição política revolucionária. Constatou-se
que esta jovem classe operária, sensível à influência dos nepmen que oferecia
um modelo de vida (enriquecimento individual e o gosto pelo lucro)
completamente estranho aos ideais de Outubro, tinha um baixo nível de
consciência de classe, além de não ter uma vanguarda com tradições bolcheviques
que lhe educasse política e ideologicamente; pelo contrário, nas fábricas, os
elementos mais conscientes eram presas fáceis do stalinismo, já em ascensão.
Preocupado com esta situação, Trotsky defendeu o que se passou a chamar de
‘militantismo cultural’, isto é, um amplo trabalho organizacional dirigido a
compreender e clarificar os problemas das diversas esferas da vida do
comportamento das massas russas: família, religião, alcoolismo, sexo, relação
entre os sexos, opressão feminina etc., no sentido de desenvolver nas massas
uma consciência de classe dos objetivos da revolução e, desse modo, dotá-las de
valores e ideais baseados na solidariedade e na camaradagem. Esta ação foi
chamada oficialmente de ‘Pérestroika Byta’, ou Reconstrução do modo de vida.
Como o próprio Trotsky afirma no livro: ‘A história não dá gratuitamente, se
faz um desconto numa coisa, sobre a política, vai recuperá-lo por outro lado,
sobre a cultura. Quanto mais fácil foi (relativamente, entende-se) ao
proletariado russo fazer a revolução, tanto mais difícil será a construção
socialista. Apesar do modo de vida ter suas raízes na economia, ele não evolui
com a mesma velocidade em que esta é radicalmente transformada, por isso,
costuma refletir as tradições conservadoras do passado mais do que a do presente.
Tanto na política, como na economia, a intervenção da classe operária para
resolver suas tarefas históricas se dá através de sua vanguarda, o partido
revolucionário, mas quando se trata do domínio de sua vida cotidiana, ela
pulveriza-se nas células familiares, por isso também é que o alcance das
conquistas da revolução para modificar a maneira de pensar e agir do
proletariado tem um efeito retardado. Para minimizar e corrigir esta defasagem
ideológica entre o que a história permitiu politicamente, a conquista do
primeiro Estado operário do planeta, e o peso do atraso cultural e das
tradições conservadoras nas relações sociais das massas russas, Trotsky foi
impulsionado a escrever a brochura “Questões do Modo de Vida”, a partir do
material colhido das discussões e entrevistas com um grupo de agitadores e
propagandistas de Moscou que lhe respondeu uma série de perguntas sobre o modo
de vida das massas pós-revolução, material reproduzido na íntegra no livro lançado inicialmente pelas Publicações LBI em dezembro de 2004. A conclusão desse debate consiste
na compreensão de que o trabalho para o fortalecimento das bases econômicas
planificadas do Estado exige também um trabalho simultâneo e complementar, numa
relação dialética, para mudar a forma de pensar e agir da classe operária, sem
precisar opor uma tarefa contra a outra, como se fossem excludentes. Ao
contrário de criar uma ‘cultura proletária’ de laboratório como queria Stálin,
era necessário conhecer o modo de vida das massas para poder transformá-lo por
meio do militantismo cultural, dedicado à sua educação política a partir de
pequenas coisas, como lhes ensinar noções de higiene, alfabetizá-las,
aproximá-las das artes e da cultura produzida pela humanidade etc. Ao mesmo
tempo, em seu livro, Trotsky combate a influência reacionária da Igreja sobre
as relações familiares, o alcoolismo como mal capitalista para embotar a
consciência de classe, incentiva a audiência ao cinema pelas massas, critica a
submissão da mulher como simples acessório masculino etc. Só um burocrata é capaz
de negligenciar os detalhes práticos de um problema porque ignora que projetos
grandiosos exigem atenção aos pequenos detalhes. Passados 94 anos da publicação
desta obra, é impressionante o grau de atualidade que ainda guarda.
Infelizmente, parte da esquerda que se diz revolucionária está longe de forjar
uma consciência de classe para fortalecer ideologicamente a vanguarda
militante, transformando seus militantes em verdadeiros soldados da revolução,
justamente porque já capitulou política e programaticamente, ao colar-se à
cauda de todas as variantes da democracia burguesa e do nacionalismo vulgar.
Nesse sentido, também esses setores são incapazes de combater ideologicamente a
burguesia. É comum constatarmos o caráter pequeno burguês desse tipo de militância,
acostumada a colocar seus interesses pessoais acima das tarefas e disciplinas
partidárias; prostituem o marxismo e renunciam ao leninismo, abraçando uma
militância ‘light’ somente nas horas livres, obedientes ao calendário festivo
da ‘esquerda’. Também são freqüentes casos de militantes que se casam sob as
bençãos do clero e o silêncio criminoso de suas correntes ‘revolucionárias’,
reproduzindo o modelo burguês de família e casamento. A Editora Nova Antódoto espera que o relançamento do livro “Questões do Modo Vida”, há tempos esgotado no
Brasil, contribua efetivamente para que a vanguarda combativa apreenda as
lições deixadas pelo proletariado soviético e seu velho dirigente, Leon
Trotsky. Que esta iniciativa sirva para superar os limites que suas direções reformistas
impõem aos ativistas classistas para abraçar a militância revolucionária na
gigantesca tarefa de forjar o partido revolucionário, a IV Internacional, única
organização capaz de destruir a atmosfera de opressão espiritual e reação
ideológica, imposta pelo imperialismo assassino após a queda da URSS.
